Futuro da Lava-jato é assombrado pelo risco de mais delegados deixarem operação

O delegado Márcio Anselmo foi o último a deixar a Operação Lava-jato
Investigação está perto de completar três anos e cinco delegados deixaram equipe depois de promoções. Márcio Anselmo, que iniciou a operação, teve a nomeação à corregedor da Polícia Federal do Espírito Santo publicada nesta quarta. Corporação está em clara disputa interna pelo controle da instituição.
Perto de completar três anos, a Lava-jato é hoje a operação que mais mobiliza a Polícia Federal, inclusive, na disputa interna pelo comando da corporação. Para um grupo de delegados, Érica Marena, a delegada que batizou a operação, deveria assumir a direção-geral no lugar de Leandro Daielo, que há seis anos está no controle e também tenta fazer o nome de um sucessor.

Além da briga de egos, a maior investigação contra políticos, empresários e doleiros do país se vê às voltas com mudanças internas que colocam um ponto de interrogação no trabalho daqui pra frente. Nos últimos meses, cinco delegados foram retirados da Lava-jato, promovidos para funções com salário melhor ou com promessa de representarem a polícia fora do Brasil. E há rumores de que mais dois podem sair devido ao episódio das escutas ilegais encontradas na cela de Alberto Yousseff. 

A apuração sobre o trabalho do delegado Igor Romário parecia concluída no Paraná, mas a sindicância assinada pelo delegado Moscardi Grillo foi questionada e está caminhando na Corregedoria Geral da PF, nas mãos de autoridades em Brasília. Os dois delegados coordenam a Lava-jato e negam que possam sair ou que tenham feito qualquer irregularidade na condução da operação. O cientista político, Antônio Flávio Testa, especialista em segurança pública, observa que a briga por notoriedade e cargos dentro da corporação sempre expôs rivalidades. 

"Um cargo desse no Brasil é um trampolim, porque a Polícia Federal é um órgão que tem uma autonomia muito grande, tem uma visibilidade muito grande. Sempre foi uma corporação muito politizada, e com a Lava-jato se tornou mais proeminente ainda", afirmou Testa. 

Nenhum delegado procurado pela CBN quis gravar entrevista, mas alguns conversaram sob a condição de anonimato. Um deles afirmou que "quem fazia as coisas acontecerem na Lava-jato foi retirado da investigação porque era mais independente". Outro, contrário a esse pensamento, disse que "há uma tentativa de criar deuses", e que a saída de um ou outro não atrapalha toda uma operação.

Delegados e agentes reclamam da falta de recursos para aprofundar ações, além da rotatividade na equipe e perda de protagonismo da Polícia Federal nas últimas fases. Eles dizem que os policiais viraram apenas cumpridores de mandados pedidos pelo Ministério Público e autorizados pela Justiça. A Associação Nacional de Delegados Federais, presidida por Carlos Sobral, chegou a pedir a troca do comando da PF. 

"Num primeiro momento, saiu da equipe o (Eduardo) Mauat, que queria ficar, mas não foi permitido que ele ficasse. Depois, a situação da Érica se tornou insustentável dentro da operação e ela saiu. Depois o Luciano (Flores) e o Márcio Anselmo, o que levou aos delegados terem esse sentimento de que a PF não tem bons rumos", avaliou Sobral. 

Márcio Anselmo deixou a Lava-jato porque foi promovido à corregedor da Polícia Federal no Espírito Santo. A mudança foi publicada na quarta-feira. A PF não comenta a pressão interna. Interlocutores do atual diretor Leandro Daielo afirmam que a polícia tem reforçado a equipe em Brasília, devido aos inquéritos que estão no Supremo, quase todos contra políticos.
Fonte: cbn.globoradio.globo.com
Rogilson Brandão

Rogilson Brandão

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