Escola pública de Fortaleza instala câmeras em salas de aula.


Terça - feira, 30 de maio de 2017

A medida fomenta debate entre profissionais. De um lado, defende-se a busca por disciplina, de outro, contesta-se a invasão de privacidade.
Dentro de sua sala, Wellington Cavalcante, diretor da Escola Municipal Raquel de Queiroz, no bairro Prefeito José Walter, acompanha por um monitor os alunos do sexto ano do ensino fundamental. Desde o último mês de abril, dez câmeras de vigilância foram instaladas na escola, três em salas de aula. Segundo Wellington, a medida busca inibir casos de bullying e indisciplina, problema recorrente no ambiente escolar. 

O ponto de partida da ação foi o roubo do carro de uma funcionária no estacionamento da escola em maio de 2016. Mas casos de indisciplina levaram o diretor a estender o monitoramento para as salas do sexto ano, onde os conflitos seriam mais constantes. A expectativa de Wellington é levar os equipamentos a outras turmas. Segundo o diretor, o objetivo, além de segurança, é “melhorar a qualidade da educação” e proteger os “bons alunos dos maus”.

Na escola municipal Raquel de Queiroz, há 20 alunos com necessidades especiais, dos quais dez estão no sexto ano. Para Wellington, estes serão um dos principais beneficiados com a medida, pois costumam ser uma das principais vítimas de bullying. Ao todo, a escola possui quase 900 alunos nos três turnos do dia.

Apesar da instalação das câmeras ter sido aprovada pelos pais das crianças monitoradas, e também pelo conselho escolar, outros profissionais da própria escola discordam da medida. 

“É vigiado demais, você se sente um pouco intimidado”, afirma a professora de Geografia Eciane Soares, que dá aula no sexto ano. Ela afirma que ainda é precoce avaliar se o comportamento em sala melhorou, uma vez que as crianças estão se acostumando com a ideia. 

Para Maria Berigiany da Silva, psicopedagoga da escola, o uso dos equipamentos invade a privacidade do estudantes. Ela justifica que o “conhecimento se dá na mistura de disciplina, de segurança, de autocontrole emocional”. “Para aprender, você precisa de todos esses recursos interligados. Então não vai ser com uma forma de intimidação que você vai forçar uma pseudo-disciplina”, argumenta a psicopedagoga. 

Berigiany foi a funcionária que teve o carro roubado no ano passado. Ela confessa que, de início, concordava com a utilização de câmeras, mas não em sala. Como psicopedagoga, ela lida direto com os casos de indisciplina e afirma que a medida tem curta duração, pois os alunos acabam se acostumando com os equipamentos e voltam a agir como se não estivessem sendo observados. 

Especialista 

Ercília Braga, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que o uso de câmeras em sala é fruto de uma mentalidade punitiva e minoritária, que remonta à figura do bedel, profissional responsável por garantir disciplina no ambiente escolar. 

Ercília afirma que a medida é antiética, pois interfere no espaço de trabalho e na autonomia didático-pedagógica do professor: “A sala de aula é espaço de poder, de diálogo, de construção, de conhecimento. O professor precisa de liberdade”. Na perspectiva dos estudantes, ela defende que eles também precisam ser livres para questionar e se expressar, o que pode ser prejudicado com as câmeras. 

Sobre indisciplina, Ercília aponta que o conflito faz parte do ser humano, que possui diferenças. O caminho desses conflitos, para a professora, se dá por meio do diálogo, da mediação, da cultura de paz, e não pela punição. 

Prefeitura 
  
A Secretaria Municipal da Educação informou, por meio de nota, que a utilização de câmeras de segurança nas escolas da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza tem o objetivo de proteger o patrimônio público, o corpo escolar (professores, alunos e demais funcionários) e a comunidade (pais ou responsáveis). 

Sobre a escola Rachel de Queiroz, a SME informa que não existe uma diretriz na Rede sobre a instalação de câmeras em salas de aulas, mas cada escola tem autonomia, dentro do princípio de gestão democrática e pedagógica, uma vez que a decisão foi acordada com os pais. A secretaria não soube informar se outras escolas municipais monitoram as salas de aula.

Em casos de indisciplina, a SME informou que atua por meio da Célula de Mediação Social, orientando as escolas sobre os paradigmas da comunicação não violenta e a promoção da Cultura de Paz.





Fonte: O POVO Online

Rogilson Brandão

Rogilson Brandão

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