'América em primeiro lugar' se transforma em 'América sozinha'.

Sexta- feira dia 02.06.2017
A decisão de Donald Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris envia uma mensagem inconfundível ao mundo: a "América em Primeiro lugar" significa a "América Sozinha". A medida isolou os EUA e mostrou que a Casa Branca está disposta a afastar-se da coalizão montada 18 meses atrás, quando Barack Obama forjou o tratado com cerca de 200 países. Agora, os EUA estão ao lado de Síria e Nicarágua, que só não entrou no pacto porque achou seus termos insuficientes.
Foi um golpe para os aliados europeus, que lançaram uma campanha para convencer Trump de que a liderança americana é fundamental para combater as mudanças climáticas. Mesmo o pedido do Vaticano não foi suficiente para persuadir o presidente. Para aliados, a decisão de Trump é particularmente frustrante porque veio após sua primeira viagem internacional.
Na Europa, Trump deu uma bronca nos parceiros da Otan, que não estariam cumprindo seus compromissos com gastos de defesa. Sua atitude deixou a impressão de que, para o presidente americano, as obrigações dos EUA com seus aliados não são inabaláveis.
Nesta quinta-feira, ele fez pouco para dirimir essas preocupações. Em um exemplo de como ele se preocupa com o que o mundo pensa sobre ele, Trump disse que os países que pediram para que ele não deixasse o acordo eram os mesmos que zombavam da participação dos EUA. "Não queremos mais que outros países riam de nós", disse. "Eu fui eleito para representar os cidadãos de Pittsburgh, não os de Paris."
Os eleitores de Trump elogiaram a decisão, que faz parte de sua promessa de colocar os interesses americanos em primeiro lugar. Quando era candidato, ele acusou Obama de capitular para outras nações em negociações internacionais. No entanto, o seu histórico de promessas cumpridas é dúbio. Trump retirou os EUA da Parceria Transpacífico, negociada por Obama, mas planeja manter o acordo nuclear com o Irã.
Na verdade, Trump não é o primeiro presidente americano a virar as costas para um acordo internacional firmado pelo seu antecessor. O presidente George W. Bush irritou os europeus quando decidiu não adotar o Protocolo de Kyoto, ratificado por 140 países.
O argumento de Bush era parecido com o usado agora por Trump, de que o acordo climático coloca a economia dos EUA em desvantagem em comparação com países poluidores, como China e Índia. Bush, porém, sempre defendeu a liderança internacional dos EUA, mesmo que suas decisões no Iraque e no Afeganistão incomodassem alguns aliados.
O mantra de Trump, a "América em Primeiro Lugar", além de sua condenação às duas guerras de Bush e à diplomacia de Obama, marcam uma nova fase isolacionista. Na quinta-feira, ele não só chamou o Acordo de Paris de um "acordo ruim", mas disse que se retirava para reafirmar "a soberania dos EUA".
Desde a eleição, assessores do presidente tentam explicar que Trump não quer isolar os EUA ou abandonar seus aliados. Conselheiros da Casa Branca apontam para a decisão da Trump de renegociar o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), em vez de abandoná-lo, como um sinal de que o presidente não pretende isolar o país.
Trump deixou em aberto nesta quinta-feira a perspectiva de renegociar o Acordo de Paris, em busca de "um pacto melhor", segundo ele. Não se sabe porque os EUA precisariam renegociar o acordo, já que ele dá a cada país o poder de estabelecer suas próprias metas.
Os europeus, porém, não estão interessados em dar ao presidente a chance de se gabar por ter conseguido um novo acordo. França, Alemanha e Itália emitiram um comunicado dizendo que o Acordo de Paris não será renegociado. Os defensores do pacto nos EUA dizem que, mesmo que isso fosse possível, os danos à reputação do país já teriam sido feitos.
Trump anunciou sua decisão no mesmo dia em que abandonou outra promessa de campanha: passar a Embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém. O presidente, assim, acatou o pedido de líderes árabes, que queriam que a embaixada ficasse onde está. Mas, no acordo climático, ele foi indiferente ao lobby de seus aliados mais próximos na Europa.
"Se você estiver em Riad, Amã ou o Cairo, viu que o presidente dos EUA se curvou a suas preocupações em um grau muito maior do que se curvou aos pedidos de Paris, Berlim e outros aliados tradicionais sobre uma questão de impacto global", disse Robert Satloff, diretor do Institute for Near East Policy.

Fonte: Associated Press.


Rogilson Brandão

Rogilson Brandão

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