Pele de peixe mais eficaz do que a humana para tratar as queimaduras graves?

Terça – feira 06.06.2017
Peixe tilápia é usado no Brasil em enxertos. Método é econômico e menos doloroso. Cirurgião plástico diz que poderiam existir viveiros em Portugal para criar a espécie. E lembra que há outras peles de animais que são utilizadas.
Investigadores brasileiros estão a apostar na pele do peixe tilápia para o tratamento de queimaduras graves. Cientistas da Universidade Federal da Ceará (UFC) - norte do Brasil - perceberam que a pele da tilápia é úmida, rica em colagênio, a proteína necessária para a cicatrização da queimadura, e resistente a doenças, sendo semelhante à pele humana, o que beneficia o processo de cicatrização. Este tratamento já foi aplicado a 56 pacientes com queimaduras de segundo e terceiro grau.
Para iniciar o tratamento a pele do peixe é colocada no paciente de forma a cobrir toda a área queimada do corpo, de seguida cobre-se a zona com uma ligadura, não sendo necessário utilizar cremes. A pele do peixe atua na queimadura e, passados dez dias, os médicos retiram a ligadura. A pele do peixe, já seca, é facilmente retirada da pele humana. Este é um processo pouco habitual, mas que alivia de forma eficaz a dor do paciente, garantiram os investigadores à Reuters.
Como o peixe tilápia é muito comum nos rios e viveiros no Brasil, este tratamento fica bastante barato, permitindo uma redução de 75% dos custos, explicou Odorico de Morais, professor na UFC.
Também a pele de porco congelada e a pele humana são utilizadas nas queimaduras graves pois permitem manter a pele úmida e transferem colagênio. Apesar de estes métodos serem eficazes, os hospitais brasileiros não têm pele humana e de porco suficientes para o tratamento de todos os pacientes. A maioria é tratada com bandas de gaze, mas necessita de mudanças frequentes, o que torna o processo doloroso para o paciente. "O uso da pele de tilápia em queimaduras é algo sem precedentes. A pele do peixe é normalmente deitada fora, por isso nós estamos a usar esse produto de forma a que traga benefícios sociais", frisou Odorico de Morais. Este tratamento acelera o processo de cicatrização em vários dias e ainda reduz a necessidade de analgésicos, acrescentou.
Luís Cabral, cirurgião plástico e coordenador da Unidade de Queimados do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, explicou ao DN que "quando há uma queimadura existem zonas que ficam sem proteção cutânea, e o processo habitual é fazer-se o penso para proteger as zonas de infeções. O tratamento ideal é a própria pele humana, que cobre a zona queimada e faz que a dor diminua. Depois de uma semana a situação é avaliada, podendo-se recorrer a uma enxertia de pele do paciente", adiantou.
Esta não é, todavia, a única alternativa. "A pele de peixe é bastante econômica, mas não é a única cobertura de pele animal usada nestes tratamentos. Também é comum a utilização da pele de rã. A tilápia é um peixe que surge da aquicultura, mas o mercado é pequeno, não se vai criar tilápia em Portugal só para este tratamento, até porque há outros peixes com características semelhantes que podem ser usados no tratamento para queimaduras. Mas caso se crie tilápia em viveiros para consumo em Portugal seria uma boa forma de aproveitar as peles", afirma Luís Cabral.
Antes da sua utilização, a pele do peixe é esterilizada e passa por um processo de radiação para eliminar os vírus. É depois embalada e refrigerada, não restando assim qualquer cheiro a peixe. Depois deste processo a pele está pronta a ser usada nos hospitais, tendo uma validade de dois anos.
Fonte: Diário de Noticias
Rogilson Brandão

Rogilson Brandão

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