Mais de mil imigrantes formam fila na porta da PF em Boa Vista

Cidade recebe imigrantes venezuelanos em busca de autorização de refúgio e emprego

BOA VISTA - O dia amanheceu com uma fila de 1,2 mil venezuelanos na porta da Superintendência da Polícia Federal (PF) em Boa Vista, em Roraima. Fugindo da fome, da escassez de medicamentos e do desemprego no país comandado por Nicolas Maduro, os imigrantes estão atrás de atendimento para conseguir refúgio ou autorização temporária de residência no Brasil. Nunca a PF recebeu tantos pedidos de refúgio, em um só dia, como na manhã desta quinta-feira, dia 15.

Quem já conseguiu autorização de refúgio passa dias e noites perambulando pelas ruas de Boa Vista, à procura de emprego ou comida. Ruben Pario Gonsales, 57 anos, deixou o estado de Bolívar, na Venezuela, há duas semanas. Veio para a capital de Roraima com a família. São seis filhos e seis netos. Conseguiram chegar a Pacaraima, cidade brasileira localizada na fronteira da Venezuela, pegando carona em cima de caminhões.

Após passar pelo núcleo de migração da Polícia Federal, a família precisou caminhar por mais quatro dias até chegar a Boa Vista. Desde então, vivem na Praça Simón Bolívar, ao lado da rodoviária internacional de Boa Vista, próximo à região central da capital. Cerda de outras 300 famílias estão acampadas no local. Debaixo de lonas e pedaços de papelão, se protegem como pode do calor e das chuvas noturnas.
— Na cidade de onde eu venho tem muita gente passando fome. Falta comida, não tem emprego. Na Venezuela estamos vivendo uma crise fatal - lamenta Ruben.

Todas as seis crianças da família têm de 1 a 7 anos. Três delas ficaram doentes na última noite, com sintomas como febre e tosse. Ruben acredita que as crianças pegaram um resfriado, porque, durante a noite, serenou bastante e a família encontrou apenas pedaços de pano e de papelão para se cobrir. As crianças não receberam atendimento médico.

— A gente chega a passar um dia sem comer. O brasileiro tem sido muito solidário com a gente. Mas tem muito companheiro nosso nas ruas. É difícil ajudar todo mundo. O que luto agora é para conseguir um emprego. Só quero uma vida digna para minha família — afirma o patriarca, que pretende trazer outros três irmãos para Boa Vista assim que conseguir estabilidade no Brasil.
O imigrante tem no currículo a passagem por três petroleiras venezuelanas, da época em que o país era comandado por Hugo Chaves.

— O Governo Maduro mente. Diz que está tudo bem, enquanto nossos irmãos morrem de fome. Precisam gastar o salário de um mês se quiserem comprar arroz e um pedaço de carne.

Nas esquinas e sinais de trânsito de Boa Vista, grupos formados por dezenas ou até centenas de imigrantes se revezam para pedir esmola. Outros saem batendo de porta em porta pedindo comida, se oferecendo para capinar quintais ou em busca de algum serviço que lhe rendam algum dinheiro.

Poucos conseguem. Juan Aranio, imigrante da cidade de El Tigre, localizada no estado de Anzoátegui, tem vagado há 15 dias pelas ruas à procura de um trabalho. No peito, o venezuelano carrega uma placa de papelão amarrada com barbantes onde, em letras garrafais, implora por trabalho.

— Deixei minha filha e quatro filhos na Venezuela. Percorri 1,6 mil quilômetros até aqui, caminhei sob sol quente por dias e dias. Agora busco algum trabalho para poder trazer minha família. Na Venezuela não temos condições de ficar. Só se vê fome, falta de medicamento e caos social — afirma.

A prefeitura de Boa Vista já registra pelo menos outros cinco acampamentos de imigrantes espalhados pela cidade. Um ginásio de esportes e pátios de estabelecimentos públicos também têm sido utilizados como acampamentos improvisados. O governo local estima que atualmente cerca de 40 mil venezuelanos já estejam na capital, fugindo da crise no país vizinho.
Fonte: oglobo.globo.com
Rogilson Brandão

Rogilson Brandão

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