Oceanos recebem, por ano, mais de 25 milhões de toneladas de lixo

"Aí paulistada, quando vocês vierem para Praia Grande, aí ó, Vila Tupi. Puxei o arrasto agora, olha o presente de vocês... nada de peixe, nada de camarão. Só lixo! Isso é revoltante".
O desespero do pescador paulista, expresso em um vídeo que viralizou nas redes sociais, é uma preocupação mundial.
Mais de 25 milhões de toneladas de lixo vão parar nos oceanos anualmente, a maioria plásticos. A cada tonelada não coletada em áreas próximas a rios que desembocam no mar, 1500 garrafas pet se misturam à vida marinha. Praticamente todas as áreas costeiras do mundo estão comprometidas, gerando desequilíbrio ambiental, danos à saúde humana e impactos para a economia. 

O levantamento inédito foi feito pela Iswa, a Associação Internacional de Resíduos Sólidos, em parceria com a Abrelpe, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Os dados serão divulgados nesta terça-feira durante o Fórum Mundial da Água, em Brasília.

Entre os diversos prejuízos gerados pela poluição desenfreada dos oceanos, o presidente da ISWA, Antonis Mavropoulos, alerta para aquele que diz respeito diretamente ao ser humano: a contaminação dos alimentos.

"Há uma série de evidências científicas sobre o acúmulo de lixo marinho na cadeia alimentar. Nos Estados Unidos, se alguém come salmão uma vez por semana, o que é bem comum, no final do ano terá consumido pelo menos mil micro pedaços de plástico. O que não sabemos exatamente é qual o impacto disso no organismo. Mas sabemos muito bem que já está dentro de nós", disse Antonis Mavropoulos.

O relatório aponta que, do total de 25 milhões de toneladas de lixo despejadas nos oceanos, 80% têm origem nas cidades. Ou seja, são fruto da falta de gestão dos resíduos pelo poder público ou da irresponsabilidade de indústrias e da população.

No Brasil, os dados são alarmantes e demonstram o desespero do pescador do início da reportagem. Descartamos 2 milhões de toneladas de lixo anualmente em nossa costa. Montante capaz de cobrir uma área equivalente a 40 vezes o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ou então encher 30 estádios do Maracanã, no Rio, da base até o topo.

O presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho, destaca que a solução não está em recolher o lixo já existente nos oceanos, mas investir na origem do problema. E o Brasil, que só trata 45% do esgoto, tem papel importante na problemática global.

"Se não houver um avanço considerável na gestão de resíduos nas cidades, nós não vamos conseguir resolver este problema do lixo marinho. Enquanto no mundo são cerca de 25 milhões de toneladas de resíduos que vão parar nos oceanos, o Brasil contribui com 2 milhões. Ou seja, quase 10% do total mundial. Nós temos aí que os impactos da má gestão de resíduos no País são de grandes proporções", avalia Carlos Silva Filho.

A ong Race For Water, que faz um mapeamento global da sujeira nos cinco oceanos do planeta, aponta que o plástico leva até 5 anos para chegar a lugares distantes. Por meio de correntes marítimas, o destino final acaba sendo o oceano pacífico. No caminho, o material é partido em vários micro pedaços, que acabam engolidos por peixes e pássaros.

Em Santos, no litoral sul de São Paulo, de 200 tartarugas marinhas tratadas no Aquário Municipal nos últimos dez anos, 124 morreram. Quase 50% apresentavam resíduos de plástico no organismo.

Pescadora há mais de 50 anos na região, Marly Vicente se pergunta: até quando será possível se alimentar do mar e tirar o sustento da família? Uma pergunta que segue sem resposta, mas com efeitos práticos bem objetivos. 

"Principalmente aqui na região de Cubatão, está com o risco muito sério de voltar a ser o Vale da Morte pelos impactos que estão sendo causados ao meio ambiente. Pescador paí de família, que nós temos uma média de 200 pescadores artesanais aqui, pescava por exemplo quatro caixas de peixe por dia, e hoje volta com um balde. Que pescava não sei quantos quilos de camarão, hoje volta com camarão que só dá para fazer isca. Então o estuário está morrendo, o mangue está morrendo", lamenta a pescadora.
Fonte: cbn.globoradio.globo.com
Rogilson Brandão

Rogilson Brandão

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